O SPLEE DE LISBOA
March 6, 2011
Numa madrugada alta do meu tédio, depois de conviver o dia inteiro com serpentes disfarçadas em maquilhagens e outras perucas de adorno ou gravata de enforcado, encontrei-me no lar solitário.
O lar sempre foi um espaço de solidão: a estrela partira de noite, deixara-me amontoados de papel e cinza pelo chão da cidade, e eu vagabundeei pelo tapete nobre, à procura de um silêncio que tivesse solução.
Rompi as solas na Pérsia, e nos claustros malditos dos cheiros nauseabundos das beatas.
Purifiquei-me sempre neste incenso espiralado do meu tédio.
Amei muito, exponencialmente ilimitado e expulsaram-me dos corredores da vida. Sempre, sempre…
Agora percorro a mulher que me ofereceu um bálsamo.
Está longe, aqui dentro de mim.
Sei que a minha solidão é a solidão do tempo.
O tempo marca ponteiros em excesso, como eu bato excessivamente a vida.
Ela usa preto, cinzento, prateado, arcos de banquetes oferecidos sem nada pedir.
Enclausurei-me nela.
Sou casto como um dilúvio de sensações.
[Fernando Guilherme Azevedo]
(27/04/2001, 20:40h)
UMA ESTRANHA SEM TERRA NEM ABRIGO
December 20, 2010
Sinto-me cansada e enxovalhada pela sociedade. Tenho o peso da vida sobre os meus ombros, não há espaço para mordomias, o meu dia-a-dia é uma luta constante e esta viagem, ao longo do tempo, apenas me acrescenta mais sobre as costas. A mochila que trago, não tem roupa que me aqueça, nem comida que me mate a fome, ao tempo que já deveria estar arrumada. O que quero não é muito é apenas descanso… um tecto.
[Ricardo Tavares da Costa]
A SAUDADE ACONTECEU
November 12, 2010
“Despeço-me de quem mais gosto, mas sei que a saudade dá lugar à experiência. Dois programas dois registos inesquecíveis.”
A Europa além dum conjunto de lugares é feita de notáveis e os sécs. XV e XVI foram particularmente generosos. Entre eles Leonardo da Vinci, um consciente e magnânimo habitante conhecido por ser um polímate de curiosidade insaciável. Talvez, “por obra do acaso”, Leonardo não se tenha cruzado com quem muitos consideram ser o primeiro europeu. Desiderius Erasmus, itinerante intelectual crónico, que recebeu a melhor educação do seu tempo e defendeu, a par de outros Humanistas, a emancipação intelectual e o uso da razão. Foi um poliglota cujo conhecimento lhe permitiu estudar e se expressar sobre diferentes temas. Curiosamente, na cidade italiana de Padova existiu também um português amigo de Erasmus, Damião de Góis, cuja mente era enciclopédica, dizem…
Pelo que foram e representam e pela diferença de mais de cinco séculos, as minhas experiências não são facilmente comparáveis com a destes senhores, mas por coincidência em cada programa que participei estive no respectivo país de origem de quem lhe dá o nome. O conjunto destas práticas europeias de mobilidade, descrevem em parte o conceito de PROgrama de Aprendizagem ao Longo da Vida, que propõe estimular a inovação e melhoria do ensino e formação profissional, através da cooperação intra-comunitária. Para muitos, esta será a sua primeira vivência autónoma no estrangeiro e existe uma altura certa para a realizar. Requer esforço e renúncia no seu decurso, também organização e flexibilidade, Ao mesmo tempo é uma aposta pessoal, que se revelará útil na maioria dos casos. A nossa percepção torna-se mais global e surgem novas possibilidades. Porque agora se compreende, agora se respeita, é-se mais solidário e ganha-se mais sensibilidade. Aprendem-se novas metodologias, ganham-se competências sociais, inteligência emocional e capacidade de adaptação e de cooperação. Adquire-se conhecimento, pois viajar e socializar também é aprender. Inevitavelmente o desejo do Erasmus ou do Leonardo, quase viciante, de ir mais além.
Depois do tempo que investi a organizar-me, incluindo a impossível tarefa de fazer uma mala para seis meses, entro no táxi e parto em direcção ao aeroporto de Lisboa. Olho pela janela e sinto a cidade fria, típico da madrugada, ou talvez da dúvida que paira: como será a minha vida daqui a uns instantes? Sinto ansiedade e penso no choque de quando anunciei a minha decisão, na angústia que causo às pessoas que ficam. Quando se gosta a despedida pode não ser serena. Sou movido pela curiosidade e expectativa de como será a Holanda, suspeito que seja diferente do que ouvi, sempre é!
Após meio dia de viagem, chego finalmente ao corredor, partilhado por dez quartos, onde vou ficar instalado. Para já está tranquilo e a meia luz, mas este será, nos próximos doze meses, o mítico 5C de Wageningen. Quem tem a chave do meu quarto ainda não chegou, por isso aproveito pouso a mala de campismo na divisão cozinha e sala de estar combinadas e sento-me no sofá vermelho de veludo gasto. Este espaço tem o que julgo ser essencial e tem uma varanda com vista sobre o parque. Sem tardar, dessa mesma varanda, surge um brasileiro adoidado, que com a sua alegre espontaneidade e hospitalidade põe-me a par do enredo. Com muito gosto, esta aparição de hoje passará a ser regra nos próximos meses, será um bom companheiro e certamente um grande amigo. Questiono, como é que raio é que consegui no aeroporto a proeza de caminhar para saída e afinal aperceber-me que voltei às portas de embarque? Rimos-nos como uns desalmados.Quando as minhas vizinhas chegam sinto-me embaraçado pois ainda não me consigo expressar em inglês como gostaria. Não me preocupo, pois tal está destinado a mudar, em breve todo o meu raciocínio irá passar a ser nessa língua.
Adapto-me facilmente e com estas boas pessoas que vou conhecendo não poderia ser mais fácil. Aos poucos o grupo de amigos vai alargando e em breve chegam mais uns colegas da Universidade de Aveiro que me acompanharão nesta aventura e representarão muito bem o seu país. Ali somos o reflexo dum lugar, duma cultura, dum estilo de vida, ali tentamos ser o melhor de nós mesmos.
Logo logo, começámos a tratar dos assuntos prioritários, a contactar o coordenador do país, a fazer reajustes às disciplinas inscritas, a comprar as bicicletas e enquanto não começam as aulas aproveitámos o máximo dos dias e das noites para conhecer a cultura, o país e as pessoas.
Quando se anda de bicicleta é rara a pessoa que não se espalhe. Um dia alguém, cujo nome não menciono, decidiu-se aventurar a tirar a camisola em andamento, claro está que este excesso de confiança lhe ia sair caro. Resultado, ganhou um mergulho no canal mais próximo em plena luz do dia para que todos vissem. As peripécias são muitas e tudo se partilha, sejam bons ou menos bons, os momentos. Por exemplo, quando adoeci foi precioso ter amigos com quem contar.
Estamos em Setembro e o tempo está agradável para passear. Ao falar com as pessoas descubro que este é um fenómeno passageiro, o normal é estar o céu encoberto, chuva, senão neve, e frio. Para já o verde das pastagens ainda contrasta com o malhado, preto e branco, das vacas, com o vermelho das ciclovias, a cor dos tijolos das casas, dos moinhos e das ruas, contrasta com os canais, tudo é novo e tudo tem potencial para ser explorado, até parece que estou no sítio certo à hora certa.
Após as responsabilidade semanais, que já são bastantes, estou tão envolvido nesta experiência que só desejo participar no próximo episódio desta novela. Aqui não existe uma altura certa para partilhar conhecimento com professores ou colegas, qualquer sítio serve e essa partilha surge naturalmente desde que nos interessemos. É nas aulas ou a caminho das mesmas enquanto se pedala na ciclovia, é nas pausas matinais para tomar um chá ou um café, é nas visitas técnicas ou mesmo em casa. Sou também devidamente alertado para o facto de ser difícil conciliar as obrigações com o lazer, estou consciente disso, sei que preciso de alguma disciplina para conseguir fazer o que quero. O tempo é suficiente e dará para tudo desde jantares e festas temáticas a actividades desportivas e viagens, doze meses até possivelmente são demais, mas certamente que seis meses seria pouco. Despeço-me desta vida, do país e das pessoas, não sei se as voltarei a ver. Este último jantar é tão difícil que mal consigo falar, tamanho é o nó na garganta. Já não sou o mesmo, aprendi e cresci tanto que à chegada sinto-me incompreendido e revoltado por estar a tornar à minha vida anterior.
…
O programa Leonardo da Vinci, impulsionou-me a abraçar mais uma boa experiência na Europa, agora de iniciação à vida profissional num cenário mais rotineiro e de responsabilidades acrescidas. Foi o sucesso do programa anterior, o conteúdo proposto para o estágio, a recomendação da empresa e o país que essencialmente influenciaram a minha decisão de embarcar novamente. Nunca pensei ter a oportunidade de me tornar fluente em italiano nem de viver Itália. À partida sabia que seria diferente, que iria estar condicionado pelas horas de trabalho e pelo cansaço acumulado. Seria importante desempenhar as tarefas com gosto, só assim conseguiria optimizar a minha motivação e produtividade. Senti a pressão de mostrar resultados, existia uma expectativa, especialmente por ter objectivos adaptados aos meus interesses. Tive que voltar a estudar, tive que ser humilde para aprender ou reaprender com os outros, tive de perder o medo de perguntar e em seis meses desenvolvi competências que não imaginava. Considero que o meu percurso académico apenas foi útil para uma ínfima parte do estágio, para me situar. Percebi a realidade profissional, mas mais importante percebi como sou, como quero ser e como conjugo os meus valores e interesses pessoais neste contexto.
Não me esquecerei do autocarro número 5 de Cesena que apanhava para casa ou para o trabalho até arranjar bicicleta, enfim uma carreira alternativa por assim dizer. Uma vez ao fim da tarde, enquanto esperava o mesmo na arcada duma rua de Cesena um senhor com a sua hospitalidade italiana mete conversa comigo. Pergunta se gostava de Itália e da cidade e o que fazia aqui? Faço um estágio – respondi eu. Um estágio? Um estágio de que? Engenharia. AH! Senhor Engenheiro! – diz ele com aquela expressividade italiana… não consegui deixar de rir, mas foi então que caí em mim mesmo… fiz um longo percurso e estou finalmente a assumir o papel para que tanto trabalhei.
[Ricardo Tavares da Costa]
THE WRITING ON THE WALL
April 20, 2009
When a individual is presented with an opportunity like this, he should take it and should remember that not everyone gets the chance to produce changes. Unfortunately I had to cease activity. Aerosols impact both human health and the environment and this was becoming self-contradicting. I felt that graffiti was blocking my personal growth and my chosen path to reduce my ecological footprint.
Presently, I miss those fulfilling times and the people which I’ve shared those moments with and sometimes the cause. I miss each one of them. Even tough we had different perspectives and conceptions of the art, we’ve always managed to make a complete whole, adopting mixed-media as the basis for our works. I take this chance to present my tribute to them.
Maybe one day, progress will also bring art to its right path, the green one, allowing me to write once again the right thing on those abandoned walls, that are simple screaming for a piece, a justifiable intervention.
Me’ne, Mene, Te’kel, Upharsin.” – The Book of Daniel Chapter Five
These are the Aramaic words that represent the origin of the sentence, writing on the wall. They speak about the falling of the Babylon Empire, according to the interpretation stated by Daniel to Belshazzar, The Babylonian king. The name Babylon means the “gate of god(s)” and the falling of it symbolizes the rebellion against god(s) idolatry.
Although I don’t rebel against god(s), I admit that many times I question it’s existence like any supernatural phenomena. Mainly because of the context in which I’ve grew up, the education I’ve pursued, sciences and technology. Also and the chance I had to travel and to experience different cultures. Are we not a product of the theory and praxis and of the surrounding conditions? Aren’t we a product of our experiences (transcendental or not) conditioned by our biological and genetic substrate?
I respect anyone who believes in god(s), but definitely I oppose myself to any kind of extreme idolatry and worship, let it be human, material, an image or an idea. I prefer to believe in people, has I’ve been taught by a friend.
Is the mind that easily addicted?
Anyway, what I would like to empathize from the Aramaic words are not these personal thoughts but the falling of the Babylon Empire itself and its relation to present times. It somehow resembles what it seems to be happening, in different proportions and characteristics from those that have happened in the past. This brings me once again to the reason I’ve chosen this title for the blog.
The falling of civilizations has happened several times throughout history for different reasons. Now I question: has our mindset developed? or are we just a product of another rearrangement, with the same closure?
I’ve heard rumors about a potential change in global consciousness. This in fact seems reasonable, since we’ve broadened our options to communicate, our mobility and understanding. Still, what has mainly changed over the years were our tools, sometimes to the point of idolatry, we’ve got materialistic. In general terms it seems that our spirituality didn’t follow this trend, holistically remaining in quasi-static equilibrium. Some good and bad deeds, here and there.
To be continued…
[Ricardo Tavares da Costa]
AN HOUR WITHOUT POWER
March 28, 2009
Tonight at Earth Hour 2009, millions of people worldwide rediscovered life without electricity. I was expecting to watch the universe glow upon my eyes, once again… unfortunately the photopollution (trespass, over-illumination, glare, clutter and sky glow) from places where this idea was unwelcome or unknown, just didn’t allow it.
Nowadays, we’re so submerged in technology that it takes a global initiative like this to self-recognize it. In my opinion, It’s a rewarding experience and we should be doing it more often. For example, it gave me the time to refresh my mind and re-enable my creativity. I’ve scribbled some words at candlelight and allowed myself to watch and enjoy the buoyant shadows on the paper and pen. I’ve truly enjoyed every single drop of moment. Time passes quickly when we constantly set daily objectives, because of our addictive ambitions. I lack time and willingness to act inside. and I blame it on western society or its system. Quotidian noise just blurs the “consciouscope”, becoming hard to walk the path that leads us to the mind, body and soul, the path of what I believe is the true self-enrichment and personal growth, but it can and should be done… everyday routine dictates us to attend and to deliver, driven by responsibilities and justifications that sometimes just mask a deep fear of not being accepted, providing the illusion of independence. Elevate yourself once again and walk that path, be free be happy.
With development came technology and with technology it may come a sedentary lifestyle, the spur of a great variety of illness and diseases. One might argue that an hour without electricity is synonym of backlash, a return to the past… Then could you tell me for instance if watching meaningless stuff on the tube, while laying on the couch trying not to move more then a single finger, adjusting the mind to the display, is a synonym of development?
What have I accomplished? – You might ask.
Health. If you read through Wikipedia you’ll easily find some effects related to incorrect and/or excessive light exposure, not to mention the stress you could avoid if you could only try and “chillax”. Also, it’s reasonable to think that people tend to sleep earlier when there’s no light, so our lifestyles are unnatural.
In terms of money, one can get a rough estimative by doing simple math’s: find the household electricity consumption (kWh) on the energy bill, divide by the energy bill’s reading interval (h) and finally multiply it for the price charged by the energy company per kWh.
In terms of the environment one can also get a rough estimative in tons of CO2 (equivalent) saved, find the household electricity consumption emission factor (440 g CO2 eq./kWh in average for Portugal), multiply with the household electricity consumption, divide by the reading interval and finally divide once again by 10^6.
Do we easily get addicted?
For two times I’ve switch on the lights, even tough I had discontinued the electrical flow by means of a circuit breaker. This implies that I’m used to have readily available electricity. Coping with the lack of it, should capacitate me for future situations and should push me to find new solutions to move off-grid, to innovate. We need to try harder.
I wish we’ll never forget the complete picture, our actions and their possible consequences.
[Ricardo Tavares da Costa]
A few words, from the author…
January 18, 2009
Dear readers.
The present blog appears in a context where I feel that this is the most appropriate time to speak out what’s on my mind. My posts reflect this need and hopefully they’ll be useful to us all, to you and surely to me. I will write mainly in english, since it’s the most widely used language on the internet.
For all of you that still don’t know me, my name is Ricardo Tavares da Costa, please feel free to check my profile here on WordPress or elsewhere on the internet:
http://www.facebook.com/ricardotavarescosta
http://pt.linkedin.com/in/ricardotavarescosta
https://www.researchgate.net/profile/Ricardo_T_Costa
You’re welcome to post your comments on this blog and i’ll be glad if you point out any mistake.
Thank you.
[Ricardo Tavares da Costa]

